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06/05/2008 - O germe da violência

DOMINGOS DE TORRE. Advogado e assessor jurídico do Sindicato dos Despachantes Aduaneiros de Santos e da Federação Nacional dos Despachantes Aduaneiros.

Sigmund Freud, repetido por Herbert Marcuse, disse que a história do homem é a história de sua repressão, equivalendo a dizer que a história da civilização é a história da repressão dos instintos humanos, pois ele entendia que ‘‘a civilização começa quando o objeto primário — isto é, a satisfação integral de necessidades — é abandonado’’ (1). O que temos hoje é o instinto animal do homem sendo constantemente convertido em instinto humano, o que se dá pela influência externa, ou seja, pelo trabalho organizado e por outros tantos fatores que tem por finalidade a sublimação dos instintos destrutivos que integram a raça humana.

Gustave Le Bom, em sua notável e sempre lembrada obra Psicologia das Massas (2), de certo modo acaba confirmando essa tese quando faz sérios estudos sobre o comportamento do ser humano integrado numa multidão. Ele concluiu que o homem, quando se mistura à massa humana, notadamente em eventos próprios à vazão daqueles impulsos, age de forma diferente da que agiria individualmente, pois se sente um pouco desatrelado da repressão social que domina e aplaca sua força instintiva naturalmente agressiva. A explicação é que em tais situações a responsabilidade individualmente reprimida desaparece, já que a mesma é transferida à massa, sendo essa a razão pela qual o ser humano, perdendo um pouco a sua roupagem adquirida pelo processo civilizatório, nesses casos acaba procedendo de forma repreensível. Não é incomum um homem médio, considerado normal para os padrões sociais e até mesmo de formação acadêmica, quanto misturado a massa num estádio de futebol, por exemplo, xingar, esbravejar e falar impropérios, num comportamento que certamente não adota em seu reduto social. Esse mesmo processo se vê nos linchamentos e no black out demorado que ocorre em certas metrópoles, como o que aconteceu em New York, tempos atrás, que durou várias horas. O que se viu neste episódio foram cenas de grande selvageria, pois as pessoas quebraram as vitrines das lojas e as saquearam, além de cometerem toda sorte de violência em cenas dantescas que chocaram o mundo.

A civilização, como se vê, é uma casca de ovo, pois basta desaparecer a responsabilidade individual com o relaxamento da repressão, ainda que momentânea, para que os instintos humanos aflorem de forma incontida e forcem o homem a cometer atos considerados ‘‘desumanos’’, pois a responsabilidade passa a ser coletiva, isto é, da massa, que então possibilita que todos possam sair da caverna e portar novamente o tacape.

O afloramento dos instintos reprimidos no subconsciente se dá mediante inopinados impulsos, incontroláveis, permitindo a um ser humano comum, de comportamento médio padronizado, a prática de certos atos desatinados, dos quais, em seguida, o sujeito dessas ações se arrepende. É que os mesmos decorrem da erupção do vulcão que nele se encontra aparentemente adormecido.

Essa força instintiva ainda misteriosa poderia ser, a nosso ver, um dos principais fatores de estudo da criminalidade, que desde os tempos antigos vem desafiando a mente dos grandes penalistas, embora possa admitir-se a existência de outros que também muito contribuem para exteriorizar a agressividade humana, mas aquela é, sem dúvida, o seu verdadeiro vetor. Segundo Marcuse, o instinto exige a satisfação integral de necessidades, constituindo a civilização um processo de abandono dessas necessidades integrais, que passam, então, a ser sublimadas pela substituição de outras fontes de satisfação, como o trabalho, o esporte, etc, as quais, no entanto, nunca atingem a necessidade primária, que é instintiva. Se é verdade a afirmação de que o homem não pode prescindir do processo civilizatório, já que este é uma condição para que haja coexistência humana, não menos será a de que o instinto o acompanha até o final de sua vida, provocando esse eterno conflito.

A diferença de um indivíduo para outro, portanto, está na capacidade que um tem em relação ao outro de aplacar esses impulsos por intermédio de uma permanente conscientização dessa verdade que permeia a natureza humana e a adoção de atitudes capazes de refrear ou filtrar os impulsos agressivos, estes nascidos dos porões do subconsciente. Tem-se aqui, então, o homem civilizado ou o homem educado, ou seja, o homem organizadamente reprimido, que será sempre, de certo modo, infeliz.

Domingos de Torre

domingosdetorre@uol.com.br
(13)3219-4671/Fax:(13)3219-6309

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